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Artigo

Bruxismo e dor na mandíbula: qual é o papel da Fisioterapia?

Daniel Ferreira

Fisioterapeuta

15 de outubro de 20267 min
Bruxismo e dor na mandíbula: qual é o papel da Fisioterapia?

Apertar os dentes ou acordar com a mandíbula cansada nem sempre significa que existe um problema de saúde. Conheça as diferenças entre o bruxismo de vigília e o do sono, a sua possível relação com a dor mandibular e as estratégias de Fisioterapia e autogestão que podem ajudar quando existem sintomas.

Em pessoas com bruxismo e dor mandibular, a Fisioterapia pode ajudar a aliviar a dor, a tensão e a rigidez nos músculos da face e do pescoço. O Fisioterapeuta ajuda a devolver o movimento normal à boca e ensina estratégias práticas para o dia a dia, permitindo-lhe gerir a dor e recuperar a qualidade de vida.

O que é o Bruxismo?

O bruxismo pode ser definido como uma atividade muscular mastigatória repetitiva ou sustentada. O bruxismo é um comportamento motor e não um diagnóstico de doença e pode ser segmentado em:

  • Bruxismo de vigília: atividade muscular caracterizada pelo contacto repetido ou sustentado entre os dentes e/ou pela contração ou projeção da mandíbula, enquanto a pessoa está acordada.
  • Bruxismo do sono/noturno: atividade dos músculos mastigatórios que ocorre durante o sono, podendo apresentar um padrão rítmico ou não rítmico.

O bruxismo por si só não é uma doença, podendo ser reconhecido como um comportamento inócuo, um fator de risco (quando gera sobrecarga mecânica, dor orofacial, fadiga muscular ou desgaste dentário severo) ou até um fator protetor em certas ocasiões (como, por vezes, na manutenção da permeabilidade das vias aéreas na apneia obstrutiva do sono).

A sua relevância clínica depende exclusivamente da presença e gravidade das suas consequências.

Como se relaciona o bruxismo com a dor mandibular?

A atividade contínua ou excessiva dos músculos mastigatórios pode gerar sobrecarga mecânica. Esta sobrecarga pode ultrapassar a capacidade de adaptação e tolerância da musculatura, resultando em dor muscular (mialgia), fadiga e hipertonia (popularmente referida como tensão muscular) nos músculos masséter e temporal.

O bruxismo pode estar associado a Disfunções Temporomandibulares (DTM). No entanto, a literatura científica enfatiza que esta associação não implica causalidade direta. Sabe-se ainda que o bruxismo e a DTM partilham fatores de risco neurobiológicos e psicossociais comuns.

Desgaste nos dentes ou marcas na língua significam bruxismo?

O desgaste dentário e/ou marcas na língua isolados não são um indicador exclusivo de bruxismo (pois o desgaste dentário pode até resultar de erosão química ou envelhecimento fisiológico), assim como a sua ausência não é um fator de exclusão do mesmo.

Além disso, estudos demonstram que o bruxismo do sono não apresenta uma associação direta causal com alterações degenerativas articulares.

Que fatores estão associados ao aparecimento do bruxismo?

Fatores Psicossociais

O bruxismo de vigília está associado a níveis elevados de stress, ansiedade, sensibilidade ao stress e sintomas depressivos. O stress pode atuar como gatilho no sistema nervoso central, aumentando a frequência e duração das contrações musculares parafuncionais (não relacionadas com a atividade de mastigação).

No caso do bruxismo do sono, as associações com fatores psicossociais são menos consistentes.

Estilo de Vida

O bruxismo é regulado predominantemente a nível do sistema nervoso central e modulado por fatores genéticos e hábitos de vida, tais como consumo elevado de tabaco, álcool e/ou cafeína e uso de certos psicotrópicos.

A quem recorrer para ajuda?

A gestão clínica otimizada do bruxismo beneficia da cooperação entre Fisioterapia (gestão da dor, função e dor cervical/mandibular) e Medicina Dentária (proteção estrutural dentária e reabilitação).

Pode ainda existir necessidade de envolver profissionais de outras especialidades como Psicologia (gestão do stress e ansiedade) e Medicina (Neurologia/Medicina do Sono/Gastroenterologia para diagnóstico de comorbilidades).

Medicina Dentária

Avalia a saúde oral e integridade das estruturas dentárias e restaurações, diagnostica patologias de origem odontogénica (cáries, pulpites, fraturas), prescreve e confeciona goteiras oclusais de proteção e realiza reabilitações protéticas/estéticas quando indicado.

Fisioterapia

Foca-se na avaliação neuromusculoesquelética e funcional do complexo craniocervicomandibular (mandíbula, crânio e pescoço), recolhendo informação sobre limitação funcional e dor, amplitude de movimento da mandíbula e coluna cervical, músculos mastigatórios e músculos da região do pescoço.

Adicionalmente, a dor na mandíbula não deve ser analisada de forma isolada. A evidência científica revela que indivíduos com dor mandibular apresentam uma maior probabilidade de sofrer simultaneamente de outras condições de dor crónica, tais como lombalgia crónica, enxaquecas e cefaleias. Esta coocorrência pode refletir fenómenos de sensibilização central, nos quais o sistema nervoso central se torna hiperreativo aos estímulos dolorosos.

Deste modo, o fisioterapeuta realiza uma avaliação global do utente, integrando o tratamento orofacial no perfil de saúde geral do indivíduo.

Como pode a Fisioterapia ajudar?

A Fisioterapia não tem como objetivo eliminar o bruxismo (que é um comportamento motor central), mas sim gerir e mitigar as suas consequências musculoesqueléticas adversas.

A abordagem da Fisioterapia no bruxismo é muito diversa e pode compreender:

  • Terapia manual (mobilizações articulares e massagem dos músculos mastigatórios e cervicais podem reduzir significativamente a dor orofacial e aumentar a abertura máxima da boca);
  • Exercício terapêutico (alongamento muscular, treino de controlo motor e fortalecimento da musculatura flexora profunda do pescoço melhoram a função neuromuscular e reduzem a sensibilidade à dor);
  • Estratégias de educação e autogestão (educação em neurociência do bruxismo, reversão de hábitos, estratégias de relaxamento e consciencialização do posicionamento de repouso mandibular demonstram redução da frequência do apertamento diurno e da atividade do masséter).

Uma das contribuições relevantes da Fisioterapia na gestão da dor mandibular é a intervenção na região cervical superior. Estudos sugerem que esta abordagem pode contribuir para reduzir a dor orofacial e muscular da mandíbula e, em alguns casos, melhorar a amplitude de abertura da boca. Estes benefícios podem estar relacionados com as ligações neurofisiológicas existentes no tronco cerebral entre o nervo trigémeo, responsável pela sensibilidade da face e da mandíbula, e os nervos cervicais, que ajudam a explicar a relação entre a dor mandibular e a cervical.

Contudo, esta relação não significa que uma “má postura” seja necessariamente a causa do bruxismo ou da dor mandibular. A literatura científica não demonstra uma relação causal direta entre alterações da postura da cabeça e do pescoço e a presença de bruxismo ou Disfunções Temporomandibulares (DTM).

Por isso, é importante uma avaliação individualizada pelo Fisioterapeuta, que permita identificar os fatores que podem estar a contribuir para a dor e as limitações funcionais, orientando a intervenção de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Quando procurar ajuda

Avaliação de Fisioterapia

  • Dor persistente ou recorrente na mandíbula (popularmente referida como maxilar), face, têmporas ou pescoço;
  • cansaço ou rigidez matinal na mandíbula;
  • limitação, desvio ou dor ao abrir a boca;
  • estalidos articulares acompanhados de dor ou bloqueios;
  • cefaleias frequentes na região temporal.

Se apresenta algum destes sinais ou sintomas, agende a sua avaliação.

Avaliação Odontológica

Procurar avaliação por Médico Dentista na presença de desgastes dentários visíveis, fraturas repetidas de restaurações ou dentes, hipersensibilidade dentária ao frio/calor, ou necessidade de confeção de goteira oclusal para proteção mecânica.

Se apresentar um bloqueio súbito da mandíbula, dificuldade acentuada em abrir ou fechar a boca, dor intensa após um traumatismo ou inchaço acompanhado de febre, deve procurar avaliação médica ou médico-dentária urgente. Estes sinais podem indicar situações que necessitam de atenção clínica imediata.

O que pode fazer hoje

Na lista abaixo encontrará algumas das estratégias de autogestão do bruxismo habitualmente recomendadas pelos Fisioterapeutas da Bwizer Health.

  • Praticar a postura de repouso mandibular: mantenha conscientemente os dentes afastados, os lábios suavemente fechados e a língua apoiada no céu da boca.
  • Utilizar alertas de consciencialização ao longo do dia: adote lembretes visuais ou notificações no telemóvel para verificar a tensão na face e interromper ativamente o apertamento.
  • Identificar e gerir os fatores de stress e estilo de vida: tente melhorar os seus hábitos de sono e reduza fatores agravantes da condição, tais como o consumo elevado de cafeína e o tabagismo.
  • Procurar uma avaliação clínica especializada: agende uma consulta de avaliação para identificar se a atividade muscular está a gerar sobrecarga, dor ou limitação de movimento, evitando adiar o acompanhamento profissional.

Mensagens a reter

  • O bruxismo é um comportamento motor, não uma doença. Trata-se de uma atividade muscular repetitiva da mandíbula que só necessita de intervenção clínica quando gera consequências adversas, como dor, rigidez ou desgaste dentário.
  • O bruxismo de vigília e o do sono são manifestações distintas. O apertamento ou travamento mandibular enquanto se está acordado está fortemente ligado ao stress e à ansiedade, sendo regulado pelo sistema nervoso central de forma diferente do bruxismo que ocorre a dormir.
  • A Fisioterapia atua na gestão das consequências. A fisioterapia pode ajudar a aliviar a dor orofacial, relaxar a musculatura e devolver a mobilidade à mandíbula.
  • A mandíbula e o pescoço funcionam em conjunto. A dor ou limitação mandibular surge frequentemente associada a rigidez ou dor no pescoço, pelo que a intervenção na coluna cervical ajuda a reduzir a dor no rosto.
  • A abordagem ideal é interdisciplinar. Por vezes, os melhores resultados na redução da dor e na proteção das estruturas orais são apenas alcançados através do trabalho integrado entre a Fisioterapia (função e dor) a Medicina Dentária (saúde e proteção oral) e, quando necessário, a Psicologia (gestão do stress).

A nossa equipa de Fisioterapia está disponível para avaliar as suas queixas e definir consigo uma abordagem adaptada às suas necessidades. Agende a sua avaliação na Bwizer Health.

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