Voltar ao Learning Center
Artigo

Dor na mandíbula e no pescoço: podem estar relacionadas?

15 de setembro de 20267 min
Dor na mandíbula e no pescoço: podem estar relacionadas?

A resposta curta e clara é sim, a dor na mandíbula e a dor no pescoço podem estar relacionadas. Por essa razão, é comum que pessoas que procuram ajuda por desconforto, dor ou até estalidos na mandíbula também relatem rigidez ou dor no pescoço (cervicalgia), tensão muscular e dores de cabeça frequentes.

A resposta curta e clara é sim, a dor na mandíbula e a dor no pescoço podem estar relacionadas. A dor na mandíbula - muitas vezes referida como “dor no maxilar” - pode estar associada a diferentes condições, incluindo as Disfunções Temporomandibulares (DTM).

As Disfunções Temporomandibulares (DTM) englobam um conjunto de condições musculoesqueléticas e neuromusculares que afetam a articulação temporomandibular (ATM), os músculos da mastigação e as estruturas craniocervicais associadas. Por essa razão, é comum que pessoas que procuram ajuda por desconforto, dor ou até estalidos na mandíbula também relatem rigidez ou dor no pescoço (cervicalgia), tensão muscular e dores de cabeça frequentes.

Como é que a mandíbula e o pescoço se afetam mutuamente?

A proximidade entre a região da mandíbula e o pescoço explica-se por mecanismos anatómicos, neurofisiológicos e biomecânicos:

  1. Ligação nervosa: os sinais de dor vindos da face e da mandíbula (conduzidos pelo nervo trigémeo) e os sinais vindos das primeiras vértebras do pescoço (C1 a C3) encontram-se na mesma central de processamento do tronco cerebral, o complexo trigeminocervical. Esta convergência ajuda a explicar por que motivo, em algumas pessoas, sintomas da região cervical e orofacial podem coexistir ou ser difíceis de distinguir.
  2. Sincronia de movimentos: os movimentos da mandíbula, cabeça e pescoço apresentam coordenação entre si e a função destas regiões pode influenciar-se mutuamente. Sempre que abrimos ou fechamos a boca, ocorrem pequenos movimentos automáticos e coordenados na cabeça e no pescoço, dependendo da musculatura cervical para manter a estabilidade postural.
  3. Alterações na região cervical: pessoas com DTM apresentam frequentemente uma menor resistência nos músculos extensores do pescoço, limitação na mobilidade da coluna cervical (hipomobilidade) e uma maior sensação de incapacidade funcional no pescoço quando comparadas com indivíduos sem este problema.

A aliança entre a Medicina Dentária e a Fisioterapia

A dor na região orofacial tem uma origem multifatorial e complexa. Por este motivo, a avaliação de dores na mandíbula e no pescoço vai muitas vezes além do âmbito exclusivo da cavidade oral, exigindo uma abordagem multidisciplinar.

É aqui que nasce uma aliança fundamental para a sua saúde: a cooperação entre o Médico Dentista e o Fisioterapeuta.

O papel do Médico Dentista

O médico dentista é o profissional responsável por diagnosticar e tratar problemas de origem dentária, alterações na oclusão (mordida), problemas estruturais das articulações da mandíbula e por realizar o diagnóstico diferencial para excluir patologias orofaciais graves ou de origem não dentária. Um diagnóstico dentário rigoroso é essencial para evitar intervenções invasivas ou irreversíveis desnecessárias.

Como pode o Fisioterapeuta ajudar?

A Fisioterapia atua como uma parceira estratégica do médico dentista na abordagem das causas musculoesqueléticas subjacentes. As diretrizes clínicas internacionais recomendam fortemente que o tratamento inicial da DTM seja baseado em métodos conservadores, não invasivos e reversíveis.

O fisioterapeuta especializado em dor orofacial e coluna cervical realiza uma avaliação detalhada das funções musculares e articulares. Esta avaliação procura perceber como se comportam a mandíbula e o pescoço, que movimentos reproduzem os sintomas e de que forma estes interferem com atividades como mastigar, falar ou movimentar a cabeça.

Quando indicado, a intervenção pode incluir:

  • Terapia Manual: técnicas de mobilização das vértebras cervicais que aliviam a dor e diminuem a sensibilidade dos músculos envolvidos na mastigação, como o masséter e o temporal.
  • Exercício Clínico: treino de controlo motor, fortalecimento dos flexores profundos do pescoço e outros exercícios direcionados para a região cervical e orofacial, selecionados de acordo com os achados da avaliação e os objetivos da pessoa.
  • Tratamento combinado: a evidência disponível sugere que intervenções que combinam exercício e terapia manual dirigidos à região cervical e orofacial podem proporcionar uma redução expressiva da dor orofacial e aumentar a capacidade de abertura da boca sem desconforto.

Porquê apostar numa abordagem multidisciplinar?

Nem todas as pessoas com dor na mandíbula apresentam alterações relevantes no pescoço, nem todas necessitam de acompanhamento por vários profissionais. No entanto, quando existem simultaneamente sintomas cervicais e orofaciais, a avaliação de ambas as regiões pode ajudar a compreender melhor os fatores associados aos sintomas e a definir uma abordagem adequada a cada pessoa.

Quando necessário, a articulação entre Medicina Dentária e Fisioterapia permite integrar a avaliação de possíveis fatores dentários, articulares, musculares e cervicais, evitando olhar para os sintomas de forma isolada.

O que pode fazer hoje?

Durante alguns dias, procure perceber em que situações os sintomas aparecem. A dor na mandíbula surge também quando tem mais dor ou rigidez no pescoço? Sente desconforto ao mastigar, falar ou abrir a boca? As dores de cabeça aparecem nos mesmos períodos?

Identificar estes padrões pode fornecer informação útil numa futura avaliação.

Quando procurar avaliação de Fisioterapia?

Uma avaliação de Fisioterapia pode ser particularmente útil quando os sintomas da mandíbula surgem associados a alterações na região cervical ou interferem com atividades do dia a dia. Considere procurar avaliação quando:

  • A dor na mandíbula é acompanhada de dor ou rigidez no pescoço, sobretudo se também existir limitação dos movimentos cervicais;
  • Tem dores de cabeça frequentes associadas aos sintomas da mandíbula ou do pescoço;
  • Sente dor ou dificuldade ao abrir a boca, mastigar ou falar, com impacto nas suas atividades habituais;
  • Os sintomas persistem apesar das abordagens já realizadas, podendo justificar uma avaliação mais abrangente dos fatores que podem estar associados ao problema;
  • Existem sintomas em diferentes regiões, para além da mandíbula e do pescoço, especialmente perante um quadro de dor persistente.

A avaliação permite perceber quais os fatores que podem estar relacionados com os seus sintomas e se existe indicação para intervenção de Fisioterapia. Quando necessário, a articulação entre o Fisioterapeuta e o Médico Dentista permite integrar diferentes componentes da avaliação e do tratamento.

Na Bwizer Health, seguimos estes princípios, articulando com o Médico Dentista quando necessário. Agende a sua consulta.

Referências

Bednarczyk, V., Proulx, F., & Paez, A. (2024). The effectiveness of cervical rehabilitation interventions for pain in adults with myogenic temporomandibular disorders: A systematic review and meta-analysis. Journal of Oral Rehabilitation, 51(6), 1091–1107. https://doi.org/10.1111/joor.13671

Bizzarri, P., Manfredini, D., Koutris, M., Bartolini, M., Buzzatti, L., Bagnoli, C., & Scafoglieri, A. (2024). Temporomandibular disorders in migraine and tension-type headache patients: a systematic review with meta-analysis. Journal of Oral & Facial Pain and Headache, 38(2), 11–24. https://doi.org/10.22514/jofph.2024.011

Busse, J. W., Casassus, R., Carrasco-Labra, A., Durham, J., Mock, D., Zakrzewska, J. M., Palmer, C., Samer, C. F., Coen, M., Guevremont, B., Hoppe, T., Guyatt, G. H., Crandon, H. N., Yao, L., Sadeghirad, B., Vandvik, P. O., Siemieniuk, R. A. C., Lytvyn, L., Hunskaar, B. S., & Agoritsas, T. (2023). Management of chronic pain associated with temporomandibular disorders: a clinical practice guideline. BMJ, 383, e076227. https://doi.org/10.1136/bmj-2023-076227

de Oliveira-Souza, A. I. S., Ferro, J. K. O., Barros, M. M. M. B., & de Oliveira, D. A. (2020). Cervical musculoskeletal disorders in patients with temporomandibular dysfunction: A systematic review and meta-analysis. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 24(4), 84–101. https://doi.org/10.1016/j.jbmt.2020.05.001

Krasińska-Mazur, M., Homel, P., Gala, A., Stradomska, J., & Pihut, M. (2022). Differential diagnosis of temporomandibular disorders — a review of the literature. Folia Medica Cracoviensia, 62(2), 121–137. https://doi.org/10.24425/fmc.2022.141703

La Touche, R., Martínez García, S., Serrano García, B., Proy Acosta, A., Adraos Juárez, D., Fernández Pérez, J. J., Angulo-Díaz-Parreño, S., Cuenca-Martínez, F., Paris-Alemany, A., & Suso-Martí, L. (2020). Effect of Manual Therapy and Therapeutic Exercise Applied to the Cervical Region on Pain and Pressure Pain Sensitivity in Patients with Temporomandibular Disorders: A Systematic Review and Meta-analysis. Pain Medicine, 21(10), 2373–2384. https://doi.org/10.1093/pm/pnaa021

Pelai, E. B., de Castro-Carletti, E. M., Tavares, L. F., Michelotti, A., Pitance, L., Rodrigues-Bigaton, D., Foltran-Meschollotto, F., Dennett, L., & Armijo-Olivo, S. (2026). Manual therapy and exercise targeted to the neck and orofacial regions for patients with orofacial pain: a systematic review and meta-analysis. Disability and Rehabilitation, 48(2), 286–330. https://doi.org/10.1080/09638288.2025.2539469

Qu, J., Qian, Y., Zhang, Y., Chen, B., Wang, R., Bao, J., Huang, X., & Lu, Y. (2025). Efficacy of manipulation and therapeutic exercise applied to the neck region of patients with temporomandibular disorders: A systematic review and meta-analysis. Journal of Stomatology Oral and Maxillofacial Surgery, 126, 102530. https://doi.org/10.1016/j.jormas.2025.102530

Rocha, C. P., Croci, C. S., & Caria, P. H. F. (2013). Is there relationship between temporomandibular disorders and head and cervical posture? A systematic review. Journal of Oral Rehabilitation, 40(11), 875–881. https://doi.org/10.1111/joor.12104

Este artigo foi útil? Fale com a nossa equipa.